Há alguns anos venho divulgando o trabalho e as dificuldades do Projeto Basquete Cidadão de Campo Mourão em manter uma equipe profissional e um projeto sério, com sete departamentos, atendendo 600 crianças do município.

Essa semana em contato com o técnico e coordenador do projeto Emerson de Souza, me deparei com uma linda história de superação, persistência e amor ao esporte que pode ser conferida a seguir.

Frederico Batalha

Imagem: Divulgação
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Uma linda história de vida, força de vontade, foco, superação, persistência e amor

(*) por Emerson de Souza

No primeiro dia de 2020 um garoto me ligou pedindo uma oportunidade para jogar no Projeto Basquete Cidadão de Campo Mourão. Na época estávamos tentando viabilizar a nossa participação na 2ª Divisão do Campeonato Brasileiro, organizado pela Confederação Brasileira de Basketball (CBB).

Foto: Divulgação/LNB
Foto: Divulgação/LNB

Esse garoto era norte-americano, com 22 anos e sem nenhuma experiência no basquete profissional. Com pouco recurso estávamos tentando montar uma equipe sub-22 para jogar o Brasileiro adulto e também os Jogos Universitários, Brasileiro 22 e 23 e tentar, no final do ano, retornar para a 1ª Divisão do basquete brasileiro, o Novo Basquete Brasil (NBB).

O nome do garoto é Matthew Frierson; que hoje, em sua primeira temporada no basquete profissional, irá representar o nosso projeto e Campo Mourão no Jogo das Estrelas de uma das maiores ligas do mundo.

Uma história incrível, mas que não foi nada fácil.

Logo no primeiro contato expliquei para ele que na 2a divisão só podia jogar um estrangeiro por equipe, diferente do NBB que pode ter quatro; expliquei para ele que não tínhamos recursos para trazer estrangeiros e custear as altas despesas de passagem, documentação, transferência internacional e salário.

Presidente Izidoro Bueno assinando o primeiro. contrato profissional do Matt / Foto: Divulgação

Com muita simplicidade o garoto falou que poderia tentar arrumar esse dinheiro se o projeto lhe desse essa oportunidade de jogar pela primeira vez um campeonato profissional. Enquanto falava com ele pelo WhatsApp ia estudando os vídeos dele no YouTube e percebi que tinha algo diferente, um arremesso muito rápido e certeiro.

Pedi desculpas a ele por não poder ajudá-lo financeiramente com essas despesas e que só podia lhe oferecer moradia, alimentação, estrutura de treinamento e uma pequena ajuda de custo mensal que oferecemos para atletas do sub-22.

Para minha surpresa e da diretoria, Matt e família aceitaram o desafio e no 19 de fevereiro ele começou a treinar com a equipe que, com o apoio da Prefeitura da cidade e vários patrocinadores, conseguiu viabilizar a participação no Brasileiro da segunda divisão.

Treino em casa / Foto: Divulgação

Era impressionante a alegria daquele garoto, contagiava todo mundo, treinava mais cedo, depois dos treinos aos sábados, domingos e feriados. Estava indo tudo bem, com o pouco recurso que tínhamos fizemos uma pré-temporada curta com apenas dois amistosos, e o Matt ainda se adaptando ao basquete brasileiro.

Quando faltava uma semana para a estreia no Brasileiro veio a pandemia que paralisou e impediu o início do campeonato e os treinos. Foi um momento muito triste e difícil, todo mundo achava que seria apenas alguns dias, mas não, a pandemia se estendeu e tudo foi fechado.

Com tudo fechado, os atletas do sub-22 foram todos embora e o único que ficou esperando um pouco mais foi o Matt. Quando os ginásios estavam fechados ele começou a treinar à parte física em casa mesmo, mas como os ginásios estavam fechados ele começou a treinar com o meu filho, Rahael, do sub -20 na tabela que temos em frente de casa.

Todo dia de manhã e à tarde eles treinavam com máscara e cuidados na rua.

Depois de alguns meses o ginásio foi liberado pela Fundação de Esportes para eles treinarem sozinhos, mas junto com essa boa notícia veio o cancelamento da 2a divisão também por causa da pandemia.

Na época começamos a negociar com a Prefeitura Municipal e alguns patrocinadores o nosso retorno para 1a. Divisão, o NBB, que teria início em novembro. Como somos um projeto franqueado da Liga Nacional de Basquete (LNB), tínhamos esse direito, mas não tínhamos os recursos.

Matt ao lado do prefeito Tauillo Tezzelli / Foto: Divulgação

Matt pensou várias vezes em ir embora já que estava muito difícil viabilizar o recurso para voltar ao NBB, mas mesmo assim pedi para ele ter um pouco mais de paciência e esperar um pouco mais; caso não conseguíssemos iria tentar indicar ele para outra equipe aqui no Brasil.

Aos poucos fomos vigarizando o nosso retorno ao campeonato de elite e quando a Liga Nacional fechou a parceria com o Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), custeando as passagens aéreas e os hotéis, conseguimos um grande impulso para nos motivar a retornar a elite do basquete brasileiro, mesmo que com muitas dificuldades.

Lembro até hoje da alegria do Matt e família quando comuniquei que havíamos conseguido o mínimo para jogar; foi uma alegria imensa para eles e também para o projeto Basquete Cidadão. Sabíamos que não seria uma temporada fácil, com uma equipe jovem, com vários jogadores vindos da divisão de acesso e outros buscando mais tempo de quadra e se firmar no NBB.

Mas, semana passada recebemos um presente maravilhoso com a convocação do Matt para o campeonato de três pontos do jogo das estrelas de uma das maiores ligas do mundo, o NBB.

Imagem: Divulgação/LNB

Para muitas estrelas é mais uma confirmação de suas grandes carreiras e sucesso dentro do basquete, mas para nós, do Projeto Basquete Cidadão de Campo Mourao, Matt e para os amigos que aqui ele fez, essa convocação para o Jogo das Estrelas veio como um título, para coroar um trabalho humilde, mas muito duro e honesto por parte desse garoto e do projeto.

E hoje o “nosso garoto americano do projeto Basquete Cidadão” vai estrear na cidade maravilhosa, no Jogo das Estrelas.

Matt, para o Projeto Basquete Cidadão de Campo Mourão, Prefeitura, patrocinadores e parceiros, é um grande orgulho ter você nos representando nesse dia especial para o basquete brasileiro, que mesmo diante de todas as dificuldades da pandemia se organizou, se superou, se reinventou e segue firme no propósito maior de fazer basquete e oportunizar momentos e histórias incríveis de força de vontade, entrega e superação.

Abraço Matt, parabéns e boa sorte!

(*) Emerson  de Souza é técnico do VipTech Campo Mourão Basquete/Assercam e coordenador do Projeto Basquete Cidadão de Campo Mourão