Basquete nacional voltou a conseguir êxito, mas o mais importante é que tem revelado jogadores. Isso vale mais do que conquistas nas categorias formadoras

Imagem: Divulgação
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A Seleção Brasileira de Aspirantes, recentemente, derrotou os Estados Unidos, representado pela Universidade de Baylor, campeã da NCAA (liga estudantil), durante a pandemia e top 8 nos últimos anos, e conquistou o torneio amistoso Globl Jam, em Toronto, no Canadá. Na campanha, o Brasil derrotou os americanos duas vezes, a Itália duas vezes e perdeu apenas na estreia para o Canadá, em jogos de altíssimo nível técnico e recheados de prospectos que brilharão na Europa e na NBA nos próximos anos.

O título brasileiro mostra o avanço do trabalho de formação nas categorias de base do basquete brasileiro nos últimos anos, capitaneado pela Confederação Brasileira de Basketball (CBB), em parceria com o Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), Comitê Olímpico do Brasil (COB), federações estaduais, clubes formadores, técnicos de base e projetos sociais e também. Além da Liga de Desenvolvimento (campeonato sub-23), que já é uma competição adulta.

“Todo o atleta, no seu processo de formação, fazendo uma comparação, assim como pilotos de avião, precisam de “horas de voo” em jogos internacionais, ou seja, experiência internacional. E a CBB, através dessa gestão, retomou sua credibilidade e a possibilidade de ser convidada para um evento como o Globl Jam, de altíssimo nível, com prospectos que estarão nas primeiras escolhas do Draft da NBA em breve, e de altíssimo nível técnico. Esse título foi importante para mostrar a qualidade do basquete brasileiro como um todo, de todo o ecossistema, e mostra que, quando cada um faz a sua parte, podemos ir muito longe”, citou Diego Jeleilate, Diretor Técnico do basquete masculino na CBB.

Desde 2017, a CBB e o Comitê Brasileiro de Clubes realizam os Campeonatos Brasileiros Interclubes de Base (CBIs), alternando idades e realizando ao menos três categorias por temporada. Este ano, por exemplo, os eventos contam com Classificatórias A e B e Fase Final no sub-15, sub-17 e sub-19. De 2017 para cá, o CBC chegou a quase 90 clubes filiados na modalidade, e torneios como o CBI sub-17 deste ano contaram com 48 times em ação.

“De 2017 para cá, foram mais de 4 mil jogos nas categorias de base, com mais de 80 equipes envolvidas e mais de 5 mil atletas em ação em todo o Brasil, apenas nos CBIs. Nesses torneios passaram nomes como o Guilherme Santos, que jogou o CBI pelo Minas Tênis Clube e depois atuou também na LDB pelo Minas antes de ir para o time profissional definitivamente. Neste ano, estamos com a temporada com eventos de alto nível, com todo o Brasil em ação, com times desde o Pará ao Rio Grande do Sul”, explica Alex Oliveira, gerente técnico da CBB.

Essa geração sub-23 conta com jogadores que passaram também por Campeonatos Brasileiros de Seleções Estaduais durante a sua formação, além de campeonatos estaduais realizados pelas federações. Yago, por exemplo, eleito o MVP do Globl Jam, já atuava pela Seleção Paulista em categorias acima da sua. Os Brasileiros de Seleções Estaduais, inclusive, foram retomados em 2022, primeiro na categoria sub-18, com etapas regionalizadas antes da etapa final, que acontecerá no final da temporada.

A grande maioria dos nomes campeões também passou por categorias de base de clubes formadores e projetos sociais que trabalham com técnicos da base focados no desenvolvimento e observação de jovens talentos. É o caso de Caio Pacheco, por exemplo, atleta que começou no interior de São Paulo, em Rio Claro, depois começou seu desenvolvimento no Palmeiras e finalizou a base no Bahía Basket, em Bahía Blanca, na Argentina, onde se profissionalizou.

“Temos que agradecer muito a todos os técnicos que passaram pela formação desses jogadores. Tivemos muito pouco tempo de treino com os atletas juntos, mas essa geração mostrou muita qualidade em momentos fundamentais, de fechar o jogo. Mostraram que são atletas preparados para situações decisivas. Não faríamos milagre com uma semana de preparação. Essa conquista é de todos os treinadores e projetos por onde esses atletas passaram”, acrescentou Diego Jeleilate.

A relação dessa turma com a Seleção Brasileira, inclusive, não é nova. Yago e Dikembe foram campeões Sul-americanos sub-21 (aspirantes), em cima da Argentina. Márcio foi campeão Sul-americano sub-17. Caio Pacheco, Dikembe e Gui Abreu venceram esse mesmo título com a dupla e ainda foram bicampeões do torneio. Mais jovem, Reynan, de 18 anos, foi campeão Sul-americano e MVP em 2022, e ainda foi eleito para o quinteto ideal da Copa América sub-18, realizada em junho, no México, quando o Brasil foi vice-campeão, mais uma prova de que o caminho realizado pelo ecossistema no Brasil vem colhendo frutos.

“Esses atletas tiveram uma experiência fundamental para a sua formação. Alguns deles, como o Yago, pularam etapas, por suas qualidades e por outros motivos, já sendo referências também em suas equipes no profissional, mas essa sensação e responsabilidade na Seleção Brasileira são fundamentais nesse processo de maturação, que no basquete acontece muito mais tarde que em outras modalidades, por exemplo”, explica Diego Jeleilate.

Ainda neste processo está a Liga de Desenvolvimento (LDB), mais um CBI com apoio fundamental do CBC, com chancela da Confederação Brasileira de Basketball para a sua realização. Ao lado do Campeonato Brasileiro adulto relançado pela CBB em 2019, a LDB, que reúne atletas que estão dando os primeiros passos no adulto, é mais uma oportunidade para que os jovens atletas possam ter tempo de quadra para se firmar no adulto. Prova disso é a quantidade de atletas que jogaram o Brasileirão e estarão em ação na próxima LDB, que se inicia nos próximos dias.

“A LDB é um campeonato muito importante na formação desses atletas por dá-lo responsabilidade de comandar suas equipes e tempo de quadra. E é mais um processo inclusivo em toda a cadeia de formação, que vem desde os campeonatos estaduais, das federações, a volta dos Brasileiros de Seleções Estaduais, todos os CBIs de base, o próprio Campeonato Brasileiro Adulto – CBB e a NBB que mesmo sendo adulto, deram a oportunidade, para que vários jovens pudessem atuar e ter tempo de quadra em outro nível”, conta Diego Jeleilate.

No último ano, além de todas as ocasiões citadas, a CBB ainda realizou dois Camps de treinamento para atletas na categoria sub-18, ambos em São Paulo e um no Rio de Janeiro na categoria sub-15, com apoio da FIBA, NBA e do Comitê Olímpico do Brasil (COB), colocando mais de 70 atletas em ação e observação com os melhores profissionais do país.

Retomada da hegemonia
A Confederação Brasileira reconquistou nos últimos cinco anos a hegemonia da América do Sul. Até 2017, o retrospecto recente era de dez campeonatos disputados e apenas dois títulos. Agora, nos últimos sete torneios da América do Sul, foram seis conquistas e outro pódio, do sub-14 ao sub-21 (que já não é mais base, sendo adulto).

Nesse processo, nomes como João Marcello (Mãozinha), Gui Abreu, Dikembe, Yago, Caio Pacheco e Márcio (observado em um Camp da FIBA com a CBB) foram campeões com o Brasil na base, passando por fases importantes de formação.

O mesmo aconteceu no adulto, com a CBB lançando atletas recém-saídos da base, como Yago Mateus, Didi Louzada, Márcio, Guilherme Santos, Tim Soares, Jonas Buffat, entre outros. Todos tiveram oportunidades em Eliminatórias de Copa do Mundo e AmeriCup. Yago, inclusive, jogou uma Copa do Mundo e um Pré-Olimpico.

Splitter conquista o primeiro título
O título do Globl Jam também foi especial por ser a primeira conquista de Tiago Splitter como técnico principal. Assistente técnico do Brooklyn Nets e ídolo do San Antonio Spurs, uma das principais franquias da NBA, ele é reconhecido internacionalmente por sua imagem e talento em quadra. Nos últimos anos, estudou e fez a migração para o trabalho como scout, olheiro e agora assistente técnico na liga de basquete americano. Além disso, é assistente técnico da Seleção principal e antes mesmo de assumir a função ao lado do técnico Gustavo De Conti, já vinha auxiliando a CBB com sua experiência.

“O Tiago é um cara que dispensa apresentações e está acima de qualquer situação pelo que construiu na carreira e pelos valores que representa. Que se preparou, que tem uma carreira que é exemplo para todos os jovens jogadores e que ao lado de toda a comissão técnica no Globl Jam, mostrou total preparo para a função. E, além disso, vem ajudando a CBB antes mesmo de sua chegada oficialmente como parte da comissão técnica da Seleção Brasileira”, cita o diretor executivo da CBB, Marcelo Sousa.

O presidente do Comitê Brasileiro de Clubes, Paulo Maciel reforçou a importância de todo o ecossistema do basquete nacional trabalhando em prol do esporte no país.

“Quero cumprimentar o trabalho realizado pela Liga Nacional de Basquete – LNB, assim como da Confederação Brasileira de Basquete – CBB, pelo excelente trabalho em prol do esporte nacional, especificamente o Basquetebol. Como representante dos Clubes, o CBC tem trabalhado em conjunto com as Confederações e Ligas visando o fortalecimento dos pilares que sustentam o esporte em nosso país. Essa conquista da Seleção Brasileira Sub-23 no Canadá, com 100% dos atletas clubísticos, é prova de que estamos todos juntos, e no caminho certo”, garante Maciel.